quinta-feira, 4 de abril de 2013

As Raízes da Crise: 1. Obsolescência Programada, e a miragem do crescimento económico!

  A Obsolescência Programada (estratégia empresarial para obrigar à substituição dos bens de consumo duradouro num prazo pré-determinado), é uma técnica de desenvolvimento económico que permite que o consumo desses bens aumente permanentemente baseada no princípio de que, se as pessoas já têm tudo, deixam de comprar. Logo, menos produção industrial, menos empregos, menos receita para o estado e segundo alguns, mais gente a viver da Segurança Social.
  Utilizando técnicas de marketing, criam em primeiro lugar a necessidade psicológica de consumo criando cada vez mais modelos do mesmo produto com outra cara: utilizam a comunicação social para espalhar subliminarmente a necessidade de um determinado produto e finalmente, seguem a tendência dos gostos. Está criado o balão que nos trouxe aqui!
  A necessidade de viver em crescimento económico apenas serve para encher todo o planeta com lixo industrial, visto que a matéria prima se transforma em lixo o que levará também ao esgotamento e encarecimento progressivo dessa mesma matéria prima. A sociedade vai, mais cedo ou mais tarde, ter que lidar com o problema. Alguns prevêem uma forte tendência para o aumento do emprego na área do serviços de manutenção ambiental. Uma área que já está na mira de algumas empresas globais prevendo com antecedência, a dimensão do pagamento que cada cidadão vai ter que fazer para manter a terra limpa. A surpresa não vem daqui: a manutenção ambiental é um dever que cada cidadão tem e que deve começar por ser preventiva e finalmente co-activa!
  Na sociedade em que vivemos, todos os produtos têm uma validade que não ultrapassa a garantia. Isto vai desde o produtos alimentares aos electrodomésticos e até ao sector automobilístico, sem esquecer a aplicação da mesma regra às instalações industriais pesadas. E se há produtos que pela sua própria natureza têm prazo de validade, a grande maioria dos bens de consumo duradouros poderia cumprir a sua função durante muito mais tempo se o design fosse concebido para ter um ciclo de vida útil mais amplo. Na realidade, esta necessidade programada provoca um aumento desnecessário dos custos de produção devido à necessidade de recurso a novos investimentos. Um investimento falacioso: é do juro advindo que o sistema financeiro constrói o seu império e tem, obviamente, interesse em que a necessidade continue a crescer para poder manter o seu sistema como se fosse possível um crescimento imparável e em moto-contínuo. O sistema financeiro ganha de dois lados: do lado do consumo ao crédito e do lado da produção de bens de consumo. Durante os últimos 100 anos, o sistema financeiro cresceu inusitadamente devido à Obsolescência Programada e criou uma elite financeira que tem vivido do interesse neste jogo de crescimento. Mas têm um problema: é saberem que a bolha não cresce sempre e que mais cedo ou mais tarde há-de rebentar. Começou agora por um furo que se tenta tapar com um remendo. Mas a pressão vai aumentar ainda mais e a bolha vai rebentar mesmo! Este é que é o problema principal desta crise que agora atravessamos. A juntar a isto há a pressão pública provocada por uma recusa social às condições de vida que esse sistema financeiro quer impor em nome de um crescimento que é uma miragem com fim à vista.
  A solução para este tipo de problema começa por uma mudança de mentalidade popular e geral, uma conscencialização de que o consumo dever ser controlado pelo próprio consumidor e cerceado o estímulo para a renovação de bens em vida útil . O consumo consciente em Portugal é uma miragem e a grande maioria das pessoas, mesmo dentro de uma faixa informada, tem uma noção pouco consciente e nada realista das próprias necessidades de consumo. Para modificar este quadro seriam precisos em Portugal, mais de vinte anos de um trabalho de informação e educação desde os primeiros níveis de ensino assim como uma postura neutra do estado em relação a esta batalha. Que o estado não continue a enganar a população fazendo passar a imagem de que o Lobbying é algo positivo: nenhum governo de nenhum estado pode estar sujeito a pressões de grupo. Os interesses de pessoa (física ou virtual) não devem ser tratados de maneira diferente independentemente de se tratar de um cidadão ou de uma empresa, naquilo que toca à possibilidade de influenciar uma decisão que mexe com toda a população! A actividade destes grupos de pressão é de tal forma avassaladora, que é muito duvidoso que as instituições públicas possam actuar contra isto se não houver uma postura clara dos órgãos legislativo e judicial.
  Se o crescimento económico continuar a ser a bússola da política governamental europeia, um destes dias vamos ter que substituir o carro a cada seis meses, a casa a cada cinco anos, o frigorífico a cada dois meses e por aí fora... O gigantismo tem que ser travado e só o consumidor tem que o travar!
  Um simples exemplo: se cada pessoa que utiliza um telemóvel deixar de o substituir por um modelo que faz exactamente o mesmo mas que apenas parece diferente quando o anterior ainda funciona, a tendência seria a de uma estabilização gradual do mercado e um crescimento limitado do investimento na produção industrial na área, com a consequente diminuição da rotação financeira. Ou seja, os recursos que agora se desbaratam em acções de marketing para vender mais do mesmo, podiam ser canalizados para a investigação e para a sustentação de prazos mais prolongados de obsolescência, do ponto de vista da produção, e um aumento da capacidade do consumidor para diversificar o seu consumo.
  Esta diversificação do consumo teria consequências benéficas para os actores menores do tecido económico e traria a economia europeia para um nível de crescimento saudável. Em Portugal, uma política de redução de consumo de bens de longa duração e uma atenção voltada para uma maior diversidade nos hábitos de consumo, traria a inversão do sistema actual e uma aproximação dos padrões do tecido produtivo de países como os do Vale do Ruhr. Os dados estatísticos são claros: enquanto p.ex. na Alemanha, a maioria do PIB é produzido ao nível das pequenas e médias empresas (+ de 90%) justamente por uma distribuição do consumo, em Portugal a situação é a inversa, sendo a maior parte do PIB produzido por grandes empresas. Esta característica da nossa economia faz com que o impacto da crise seja muito mais forte aqui.
  Do ponto de vista legislativo, seria fácil aumentar para quatro anos a garantia obrigatória dos bens de consumo duradouro como os electrodomésticos, e para dez anos a garantia dos bens de maior duração como as viaturas. No caso de empresas com investimento em maquinaria de produção, essa garantia deveria ser feita através do acordo com as empresas do ramo segurador em conjunto com a co-responsabilização dos bancos responsáveis pelo financiamento de forma a evitar que sejam feitos investimentos não produtivos, muitas vezes que apenas servem para camuflar negócios com terceiros, fugas de capitais e irregularidades contabilísticas.
  Portugal vive de costas voltadas para as realidades do mundo actual e pensa que, pelo facto de não ver o que se passa, a realidade não está lá!

quarta-feira, 3 de abril de 2013

As Raízes da Crise: 2 - As Mentalidades Empresariais e Políticas no panorama do comércio externo

  A simples observação do tecido comercial em Portugal, com predominância das grandes superfícies, mostra bem a standardização do consumo no país. A imposição do pagamento do estacionamento junto ao centro das cidades, apenas confirma o poderio dos Lobbies. E sem qualquer razão visto que no actual estádio de desenvolvimento das comunicações, com a respectiva deslocalização das empresas para as periferias e ainda, apesar da desertificação dos centros urbanos, os governos locais continuam a cobrar em vez de fiscalizar com mais eficiência o estacionamento nos centros urbanos. A consequência é que as pessoas procuram os centros comerciais pela comodidade que oferecem e o consumidor fica à mercê de regras que apenas o prejudicam e que são impostas por empresas multinacionais e oligarcas cujo objectivo é centralizar o poderio da distribuição para poderem impor ao consumidor tanto o preço como o tipo de mercadoria que entendem como melhor negócio visto que não há mais escolha. Alguém se deu ao trabalho de reparar, durante alguma das suas visitas à nossa vizinha Espanha, que a aparência do nosso pequeno comércio dá pena?
  Como funcionam as pequenas empresas em Portugal? E como poderão encontrar uma saída para o estado lastimável em que se encontram? Não será decerto a continuar com a mesma política de investimento e de modernização que tem vigorado até agora e que apenas serve os fins neo-liberais do grande capital.
  A crise instalada tem origens muito anteriores às que agora os responsáveis do governo querem fazer de bode expiatório para poderem continuar a passear a sua arrogância e incompetência. Mas isso não é desculpa!
  Em primeiro lugar há no nosso país uma tendência para deixar estar tudo como está e mexer o menos possível nas coisas só porque estão ou estiveram, durante um certo tempo, a correr bem. Há mesmo um ditado que mostra bem o tipo de perspectiva do empresário em Portugal: no futebol diz-se que em equipa que está a jogar bem não se mexe! Mais retrógrado que isso e demonstrativo da mentalidade dos nossos comerciantes, não há! Na política passa-se exactamente o mesmo: o povo Português tem uma aversão natural à mudança, mesmo quando isso lhe pode ser benéfico!
  A grande maioria do empresariado português trabalha do mesmo modo desde que começa a sua empresa até que se dá conta de que o que teria que ser mudado já vem tarde. Depois queixa-se: dos impostos, da crise enfim, de tudo menos de si mesmo.
  Eu passo pelas ruas da nossas cidades e vejo os centros urbanos pejados de lojas e lojinhas que parecem ter saído dos confins da memória dos nossos avós. E de nada lhes serve o exemplo das grandes multinacionais que operam ao seu lado. Não querem saber de mudanças e quando estas lhes são propostas dizem sempre o mesmo: não mudamos porque sempre trabalhámos assim e achamos que os nossos clientes preferem que assim continuemos.
  Trata-se de uma postura imobilista e preguiçosa que apenas pode ter mau resultado. em todos os países e mesmo nas sociedades chamadas "em  vias de desenvolvimento", sempre encontrei uma postura de desejo de modernização, num espírito de competição em que pouco importa o que os outros fazem mas antes aquilo que nós podemos fazer para melhorar o nosso negócio. E ninguém está à espera que o governo lhes ensine aquilo que eles devem aprender por si mesmos.
  No nosso país há que atirar sempre as culpas para alguém desde que isso não chamusque nenhuma das nossas certezas e especialmente não nos faça sentir mal com a nossa própria consciência. Sem mudar esta mentalidade nunca os nossos empresários poderão sequer aprender a sua própria profissão. Nos dias que correm, com tantas tentações por todo o lado, quem quer passar meses e meses a passar diante das mesmas montras cheias de pijamas de outras eras a que mesmo os nossos avós torcem o nariz? Mas não! Vamos continuar a fazer o que sempre fizemos porque foi assim que o meu pai fez e o meu avô e antes deles, os pais dele. E foi assim que me criaram e eu estou aqui vivo e pelo menos vou andando...
  Pois é mas nem sempre as coisas correm de forma a andar! E depois é que são elas!
  Parece de momento impossível uma mudança desta mentalidade. Primeiro por falta de iniciativa do próprio empresário e depois por uma inércia intencional do sistema de financiamento bancário que, salvo raras excepções, nega crédito para uma modernização desse tecido empresarial por isso poder vir a colocar em causa o lucro das grandes empresas que muitas vezes têm nos seus quadros directivos sócios dos próprios bancos! E qual seria a chance de um pequeno empresário poder enfrentar os conglomerados gigantes que dominam a economia do país e que movimentam milhares de milhões de €uros através dessas mesmas instituições?
  Depois é a justiça que não funciona! E porque essa mesma justiça está de mãos dadas com o grande capital, sempre pronta a descurar os crimes dos grandes "senhores". Em Portugal, quem tem dinheiro pode fazer o que muito bem entender porque, aos olhos da justiça, quem tem grandes posses só pode ser boa gente. Descura-se uma velha máxima: quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vêm.
  Os nossos juízes foram, na sua grande maioria, criados na antiga mentalidade portuguesa que define a personalidade das pessoas pelas suas posses e não pela sua estrutura psicológica! assim, um milionário dono de um ou vários hipermercados, é melhor pessoa do que um pequeno comerciante de ruela. Mesmo que por trás da sua fortuna estejam os mais incríveis crimes. Nada disso: tem montes de dinheiro, logo está acima de qualquer suspeita. Logo qualquer acusação de abuso de posição privilegiada feita contra algum dos grandes oligarcas, é motivo para se olhar com desconfiança para o acusador que corre o risco de ser visto como um "bufo".
  E claro que, apesar disso, a subserviência dos nossos empresários é lendária: ninguém se atreve a fazer frente a estes senhores como medo de ficarem mal vistos ou pior ainda: serem processados por um qualquer motivo sem sentido. Têm medo de que possam chamar-lhes agitadores ou coisa do género A verdade é que nem mesmo para defender os seus interesses alguém levanta a voz e tenta ao menos mudar as regras do jogo. Assim, quando oiço falar em crise no pequeno comércio, fico logo "de pé atrás" como sói dizer-se.
  Também sei que a maioria dos nossos empresários ainda vive numa espécie de limbo que foi provocado pelo grande capital. Mas nunca poderei deixar de pensar, correndo o risco de ser politicamente incorrecto, que muita da culpa do que está a acontecer, é dos pequenos empresários e da mentalidade retrógrada que lhes serve de base comportamental. Quem corre por gosto não cansa! E já vai sendo tarde para se proceder a uma mudança profunda, ainda que pacífica, das mentalidades.
  Mas os nossos governantes e políticos também têm a sua quota parte da culpa deste estado de coisas. Onde está a política de comércio externo do País? Quais os apoios que o estado porporciona aos nossos empresários se estes quiserem ter uma estratégia de internacionalização? Como é que os nossos produtos são divulgados no estrangeiro? Onde está a formação profissional para levar a cabo uma verdadeira política de espansão internacional? Como é que os nossos empresários podem competir com as potências estrangeiras, algumas de grande dimensão, quando os seus países lhes porporcionam apoios para estabelecerem os seus pontos de venda aqui e o nosso governo não exige contrapartidas de igual qualidade nos seus países de origem? Se por cada loja chinesa em Portugal, houvesse uma com produtos portugueses na China, de certeza que não estaríamos agora nesta ingrata situação que é a de ter que pedir de joelhos que nos ajudem. A reciprocidade mas relações comerciais de qualquer país com outro, só pode funcionar se houver de parte a parte uma postura que garanta esse equilíbrio e que não sirva apenas os interesses de um só lado que é o que acontece aqui com a descarada conivência das autoridades portuguesas. Será por burrice? Ou será porque por trás desta política de terra queimada estarão escondidos interesses obscuros para proteger grandes multinacionais. Assim: se a Daimler-Benz, quiser abrir mais cinquenta pontos de venda em território chinês, a UE negoceia uma série de interesses que apenas beneficiam a empresa alemã, através da cedência de quotas de mercado em território europeu que nada têm a ver com a indústria automóvel. Lembro a postura dos Alemães aquando da crise do Vale do Ave e da indústria têxtil portuguesa que foi cilindrada pela produção chinesa de baixa  qualidade e baseada numa política de baixos salários e violação sistemática de direitos humanos. A indústria têxtil nacional foi sacrificada ao interesse das multinacionais do norte da UE sem qualquer contemplação pelo interesse do país e da sua população. E agora são os mesmos alemães que nos querem pressionar para que entreguemos o pouco que nos resta em troca de um prato de sopa. Trata-se de uma bem sucedida investida para vergar o país e subjugar o povo aos interesses das grandes potências económicas. Uma vergonha histórica sem paralelo.
  Agora e pelos vistos, só mesmo com a chicotada da crise que, se for para mudar alguma coisa na mentalidade deste povo, que seja bem vinda. Só espero sinceramente que ela não sirva de mote para que o povo português reaja como sempre faz quando se apresenta uma grande crise: escondendo-se nas cavernosas profundezas do passado e colocando-se obstinadamente nas mãos de um ditador. Os nossos políticos nem sequer têm vergonha de continuar a apregoar a passividade do nosso povo. Até quando Portugal?