A Obsolescência Programada (estratégia empresarial para obrigar à substituição dos bens de consumo duradouro num prazo pré-determinado), é uma técnica de desenvolvimento económico que permite que o consumo desses bens aumente permanentemente baseada no princípio de que, se as pessoas já têm tudo, deixam de comprar. Logo, menos produção industrial, menos empregos, menos receita para o estado e segundo alguns, mais gente a viver da Segurança Social.
Utilizando técnicas de marketing, criam em primeiro lugar a necessidade psicológica de consumo criando cada vez mais modelos do mesmo produto com outra cara: utilizam a comunicação social para espalhar subliminarmente a necessidade de um determinado produto e finalmente, seguem a tendência dos gostos. Está criado o balão que nos trouxe aqui!
A necessidade de viver em crescimento económico apenas serve para encher todo o planeta com lixo industrial, visto que a matéria prima se transforma em lixo o que levará também ao esgotamento e encarecimento progressivo dessa mesma matéria prima. A sociedade vai, mais cedo ou mais tarde, ter que lidar com o problema. Alguns prevêem uma forte tendência para o aumento do emprego na área do serviços de manutenção ambiental. Uma área que já está na mira de algumas empresas globais prevendo com antecedência, a dimensão do pagamento que cada cidadão vai ter que fazer para manter a terra limpa. A surpresa não vem daqui: a manutenção ambiental é um dever que cada cidadão tem e que deve começar por ser preventiva e finalmente co-activa!
Na sociedade em que vivemos, todos os produtos têm uma validade que não ultrapassa a garantia. Isto vai desde o produtos alimentares aos electrodomésticos e até ao sector automobilístico, sem esquecer a aplicação da mesma regra às instalações industriais pesadas. E se há produtos que pela sua própria natureza têm prazo de validade, a grande maioria dos bens de consumo duradouros poderia cumprir a sua função durante muito mais tempo se o design fosse concebido para ter um ciclo de vida útil mais amplo. Na realidade, esta necessidade programada provoca um aumento desnecessário dos custos de produção devido à necessidade de recurso a novos investimentos. Um investimento falacioso: é do juro advindo que o sistema financeiro constrói o seu império e tem, obviamente, interesse em que a necessidade continue a crescer para poder manter o seu sistema como se fosse possível um crescimento imparável e em moto-contínuo. O sistema financeiro ganha de dois lados: do lado do consumo ao crédito e do lado da produção de bens de consumo. Durante os últimos 100 anos, o sistema financeiro cresceu inusitadamente devido à Obsolescência Programada e criou uma elite financeira que tem vivido do interesse neste jogo de crescimento. Mas têm um problema: é saberem que a bolha não cresce sempre e que mais cedo ou mais tarde há-de rebentar. Começou agora por um furo que se tenta tapar com um remendo. Mas a pressão vai aumentar ainda mais e a bolha vai rebentar mesmo! Este é que é o problema principal desta crise que agora atravessamos. A juntar a isto há a pressão pública provocada por uma recusa social às condições de vida que esse sistema financeiro quer impor em nome de um crescimento que é uma miragem com fim à vista.
A solução para este tipo de problema começa por uma mudança de mentalidade popular e geral, uma conscencialização de que o consumo dever ser controlado pelo próprio consumidor e cerceado o estímulo para a renovação de bens em vida útil . O consumo consciente em Portugal é uma miragem e a grande maioria das pessoas, mesmo dentro de uma faixa informada, tem uma noção pouco consciente e nada realista das próprias necessidades de consumo. Para modificar este quadro seriam precisos em Portugal, mais de vinte anos de um trabalho de informação e educação desde os primeiros níveis de ensino assim como uma postura neutra do estado em relação a esta batalha. Que o estado não continue a enganar a população fazendo passar a imagem de que o Lobbying é algo positivo: nenhum governo de nenhum estado pode estar sujeito a pressões de grupo. Os interesses de pessoa (física ou virtual) não devem ser tratados de maneira diferente independentemente de se tratar de um cidadão ou de uma empresa, naquilo que toca à possibilidade de influenciar uma decisão que mexe com toda a população! A actividade destes grupos de pressão é de tal forma avassaladora, que é muito duvidoso que as instituições públicas possam actuar contra isto se não houver uma postura clara dos órgãos legislativo e judicial.
Se o crescimento económico continuar a ser a bússola da política governamental europeia, um destes dias vamos ter que substituir o carro a cada seis meses, a casa a cada cinco anos, o frigorífico a cada dois meses e por aí fora... O gigantismo tem que ser travado e só o consumidor tem que o travar!
Um simples exemplo: se cada pessoa que utiliza um telemóvel deixar de o substituir por um modelo que faz exactamente o mesmo mas que apenas parece diferente quando o anterior ainda funciona, a tendência seria a de uma estabilização gradual do mercado e um crescimento limitado do investimento na produção industrial na área, com a consequente diminuição da rotação financeira. Ou seja, os recursos que agora se desbaratam em acções de marketing para vender mais do mesmo, podiam ser canalizados para a investigação e para a sustentação de prazos mais prolongados de obsolescência, do ponto de vista da produção, e um aumento da capacidade do consumidor para diversificar o seu consumo.
Esta diversificação do consumo teria consequências benéficas para os actores menores do tecido económico e traria a economia europeia para um nível de crescimento saudável. Em Portugal, uma política de redução de consumo de bens de longa duração e uma atenção voltada para uma maior diversidade nos hábitos de consumo, traria a inversão do sistema actual e uma aproximação dos padrões do tecido produtivo de países como os do Vale do Ruhr. Os dados estatísticos são claros: enquanto p.ex. na Alemanha, a maioria do PIB é produzido ao nível das pequenas e médias empresas (+ de 90%) justamente por uma distribuição do consumo, em Portugal a situação é a inversa, sendo a maior parte do PIB produzido por grandes empresas. Esta característica da nossa economia faz com que o impacto da crise seja muito mais forte aqui.
Do ponto de vista legislativo, seria fácil aumentar para quatro anos a garantia obrigatória dos bens de consumo duradouro como os electrodomésticos, e para dez anos a garantia dos bens de maior duração como as viaturas. No caso de empresas com investimento em maquinaria de produção, essa garantia deveria ser feita através do acordo com as empresas do ramo segurador em conjunto com a co-responsabilização dos bancos responsáveis pelo financiamento de forma a evitar que sejam feitos investimentos não produtivos, muitas vezes que apenas servem para camuflar negócios com terceiros, fugas de capitais e irregularidades contabilísticas.
Portugal vive de costas voltadas para as realidades do mundo actual e pensa que, pelo facto de não ver o que se passa, a realidade não está lá!
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